O projeto Slam na cidade de Sobral foi criado como uma necessidade de se ter um movimento poético, além de mostrar para os jovens da periferia que eles tinham um palco para mostrar sua arte. Em março de 2017, surgiu o primeiro Slam na Praça do Farias Brito, e a partir dai alguns nomes começaram a ser reconhecidos como “slamers”, ou seja, aqueles que mostravam sua arte através do movimento. Alguns exemplos são: PH, Bicha Poética e Cacheada Santos.

Batizado primeiramente como Slam das Minas, e logo após como Slam das Cumadi é o primeiro Slam só feminino do Ceará, teve sua primeira edição no dia 5 de outubro de 2018, e foi iniciado como porta-voz contra a campanha do atual presidente da república, usando o slogan “se fere minha existência, serei resistência” na sua primeira reunião. É um projeto novo que ainda está no começo, procurando se entender e ganhar mais visibilidade com divulgações nas redes sociais como Instagram (@slamdascumadi) e Facebook (Slam das Cumadi). Em primeira mão, o Slam ia ser feito apenas em bairros periféricos, sua primeira edição foi feita no bairro Terrenos Novos, mas com a dificuldade de locomoção e a falta de segurança para com as meninas, os encontros foram marcados no centro, especificamente na Margem Esquerda, acontecendo na última quinta ou sexta feira do mês.

É um projeto idealizado por Cacheada Santos e Layze Martins, com a ajuda de Fran Nascimento, sendo dividido em duas categorias: disputa poética e palcos abertos. O primeiro é baseado em uma competição de slamers, disputando entre si, a mulher com a maior pontuação ganha algum prêmio em questão. Já o segundo, é apenas o recitar de poesias em um palco, sem nenhuma disputa. Todo o protagonismo é do público feminino, desde o júri, até quem marca o tempo de cada poesia.

O Slam das Cumadi não recebe nenhum auxílio da prefeitura, ou de qualquer outro órgão político. As organizadoras normalmente entram em contato com algumas lojas para ter uma premiação na disputa poética. Como ainda estão no início, as slamers tentam ao máximo ganhar visibilidade, se apresentando em projetos como Largo Musical da ECOA, uma instituição que mantém parceria com a Prefeitura de Sobral, para promover atividades socioeducativas na parte cultural da cidade.

Com isso, o curso de Jornalismo conversou com a Slamer Marcela Sena sobre o papel da mulher na sociedade e como projetos tais qual o Slam das Cumadi podem dar voz para aquelas que por muito tempo permaneceram caladas.

 

JORNALISMO UNINTA: É de comum acordo que o movimento feminista ainda é carregado de preconceito por muitas pessoas que não entendem sua importância. Na sua opinião de que modo o Slam pode ajudar a quebrar essa barreira de preconceito tanto por parte dos homens e até mesmo de algumas mulheres?

MARCELA SENA:  O feminismo ainda é muito mal visto por quem não entende, e só quem tem essa imagem é quem não procura informações sobre. O pessoal acha que é “morte ao homem”, que queremos dominar o mundo e não é isso. Queremos igualdade, e o slam dá uma abertura para isso, o projeto é aberto para todos como muito carinho, mas direcionado somente para mulheres estarem se empoderando e empoderando outras, passando na poesia a força que a mulher tem e seu espaço na sociedade. O slam tem vários temas, cada menina tem uma abordagem diferente, tem umas que falam sobre relacionamentos, já eu abordo mais o feminismo em si. Não somos contra os homens, queremos que eles lutem com a gente.

JORNALISMO UNINTA: Nós sabemos que por muito tempo, a arte ficou muito restrita apenas ao espaço masculino que detinha o conhecimento. Hoje em dia, a gente está vendo, desde o século passado pra cá, mais mulheres mostrando sua arte, seja na literatura, poesia ou arquitetura. Como você enxerga o Slam nessa abertura da arte para mulheres?

MARCELA SENA: Quando eu era mais nova, escrevia coisas e jogava fora porque não achava nada importante, por ser preta, por ser recriminada desde que nasci. Eu sempre recebi muitos preconceitos ao longo da minha vida, e nunca abri minha cabeça para isso. A partir do momento que a mulher quer viver, ela começa a abrir sua arte daí. A arte que você falou era ligada literalmente ao homem hétero, e o slam, hoje em dia, tenta abrir essa arte para todas as mulheres, independente de qual estilo ou meio ela esteja. É o trazer mulheres para perto de outras mulheres, e homens também, para a gente desenvolver uma sociedade mais evoluída, com uma mente mais aberta.

JORNALISMO UNINTA: Sabemos que meninas de bairros periféricos não tem tanto conhecimento como nós sobre questões do feminismo, pois muitas vezes esse estudo não chega a elas como chega na gente, e quando a gente conversou, você falou que o slam deveria ser feito em bairros periféricos. De que forma, o Slam das Cumadi e o da Quintura podem passar um conhecimento a mais para as meninas?

MARCELA SENA: O ECOA cuida muito em não deixar a periferia morrer, ele tem um projeto de irem em escolas de bairros periféricos, e a primeira edição do Slam foi nos Terrenos Novos, pouquíssimas pessoas aparecerem, no máximo umas dez mulheres. Com o tempo, o pessoal do bairro mesmo foi conhecer e a visibilidade aumentou. Tem meninas do Slam que da turma delas que estudavam em determinado bairro de Sobral hoje estão mortos, ou se deixaram levar pelo tráfico.  Tem gente que abre a mente a partir do momento que sai da periferia e vai conhecer o mundo. A gente quer levar isso para os bairros periféricos. Estão fazendo um anfiteatro no Alto do Cristo, e a gente está tentando levar isso para lá, porque é um bairro periférico que depois da reforma pode ser bem visto, é mais fácil de acesso do que os Terrenos Novos, ou Sumaré.

JORNALISMO UNINTA: Já que você falou do ECOA, eu queria saber o quão importante você acha que esses eventos culturais são para apresentar o projeto de vocês para a sociedade em geral, além das pessoas específicas que vão querer ir.

MARCELA SENA: O ECOA não tem uma certa parceria com os Slams, tanto o da Quintura quanto o das Cumadi, no Largo Musical que teve na Margem Esquerda, o Slam das Cumadi foi, mas ninguém estava sendo pago para estar lá, diferente dos outros. Todos estavam recebendo, estava sendo investido, sabe? A Prefeitura ainda não investe na poesia em si, e a gente está tentando essa parceria com o ECOA, porque é um meio de visualização muito grande por conta da quantidade seguidores. A gente não recebe dinheiro, vamos porque gostamos, porque queremos passar nossa poesia, nossa arte para outras pessoas, sabe? Vocês que são do Jornalismo sabem o quanto divulgação é importante e estamos tentando essa parceria com o ECOA. Como o Slam é um projeto novo, estamos indo devagarzinho, estamos indo em instituições, tentando passar o nosso trabalhar devagar, e como temos amigos que trabalham no ECOA, ai é uma parceria que com o tempo vai dando certo, e esperamos que a prefeitura também tenha consciência disso, já que o nosso prefeito está respondendo nossas histórias.

Disciplina: Gêneros e Técnicas Jornalísticas, 2019.1
Alunos: Gabriel Araújo, Laiana Brandão, Maria Rita Paiva e Samuel Carvalho.
Professor: Augustiano Xavier

Professor: Augustiano Xavier